Pra não dizer que não falei do Bruno
crítica, desabafo, filhos, morte, respeito, vergonha julho 14th, 2010
- Filha, vem cá. Tais vendo esse caso do goleiro?
- Tô.
- E o que estais entendendo disso?
- Que a moça teve um filho com ele pra ficar ganhando a pensão e ele não quis pagar e matou a moça.
- É isso mesmo. Mas o que a mamãe quer que tu entendas, é que o mais importante dessa história é que o fato dele ser famoso, de ser um ídolo do futebol, não faz dele uma boa pessoa. A moça o escolheu para ser pai do filho dela pelos motivos errados. E pagou muito caro por isso. As vezes uma pessoa sabe chutar, ou agarrar uma bola, sabe cantar, interpretar um texto, e por isso se torna alguém admirado por todos, sem que sequer se avalie o seu caráter. O que a mamãe quer te ensinar é que a fama de uma pessoa não corresponde ao seu valor real e uma pessoa deve ser admirada por ser boa, não apenas por estar numa posição de destaque.
Não vou escrever aqui que o tal do Bruno é um bandido (coisa que eu acho), porque ele ainda não vou julgado e condenado, por isso ainda é apenas um suspeito.
Também não vem ao caso ressaltar os requintes de crueldade do caso, nem o número de envolvidos. Não vou comentar nem sobre a relação homossexual (pois homem que tatua declaração de amor ao amigo nas costas é o que?). E nem vou me deter aos detalhes promíscuos da vida da vítima.
Pra mim, o que realmente importa neste caso é que simplesmente por agarrar bolas um sujeito sem escrúpulos foi alçado à posição de ídolo, atraindo a atenção de jovens, oportunistas ou não.
O que pode parecer natural, pois estamos no país do futebol.
Isso não é natural. Eu não acho. Natural seria admirar o sujeito que leva uma vida correta, se dedica aos estudos e ganha prêmios por um trabalho relevante.
É esse mundo que eu quero pra minha filha.


julho 14th, 2010 at 11:39
Parabéns pelo texto!
julho 14th, 2010 at 15:29
Maitê, estou aqui escrevendo como um amante do esporte, e por isso mesmo informo meu e-mail pessoal. Antes de todas as acusações, Bruno era sim um ídolo digno de admiração. Em dezembro passado, levantou a taça de campeão brasileiro pelo Flamengo como capitão da equipe, o que fez explodir de felicidade aproximadamente 15 milhões de apaixonados no Brasil. Contudo, como eu falei, ele ERA. Porém, os outros atletas do futebol brasileiro, goleiros ou não, continuam sim sendo ídolos. O esporte tem função social. Cansei de ver vizinhos meus de bairros pobres saindo da miséria pelo fato de terem tido oportunidade no futebol. Hoje sustentam suas esposas e prole – têm filhos assim como tu tens – com seu suor e esforço, que são sim dignos de admiração, simplesmente por jogar bem futebol. Se Bruno é culpado, ou não, independe da profissão dele. Hoje idolatramos com razão jogadores como Dagoberto e Léo Moura, assim como idolatramos ídolos mais intelectuais como Paulo Coelho e JK Rowling, pelo “simples” fato de se destacarem em suas respectivas profissões. Hoje, idolatramos esses escritores, contudo se um dia eles vierem a se tornar criminosos, automaticamente devemos parar de admirá-los – do mesmo jeito que estamos fazendo com o goleiro Bruno.
julho 14th, 2010 at 21:35
Fernando, em 1º lugar, fiquei muito feliz com a tua visita. Valeu.
Quanto aos jogadores de futebol, continuo achando que há uma inversão de valores quando se destaca um talento físico acima das habilidades intelectuais.
Que bom que os moleques conseguiram vencer na vida pelo futebol, mas fico fula de ver gente que se dedica aos estudos e não chega lá.
Acho razoável um atleta ganhar bem. Viver bem.
Não me conformo é com os salários astronômicos. Milhões de dólares pra uns manés que mal sabem soletrar o próprio nome.
E nem vou comentar o fato de ter considerado o Paulo Coelho um intelectual, né.
Fenômeno literário, tudo bem, não dá pra contestar. Mas intelectual?
julho 14th, 2010 at 23:16
Maitê e Fernando… vejo um pouquinho de razão em cada um de vocês.
Como amante do futebol e dos esportes de um modo geral não posso deixar de tratar do assunto. O jogadores ganham bem e muito bem (certamente não só por mérito deles mas do mercado em que estão inseridos que os tratam desta forma). Mas ao mesmo tempo quantos humorista (que repetem as mesmas piadas todos os dias) ganham também salários enormes (e dizem que viver de arte no Brasil é difícil)? Quantos fenômenos artísticos aparecem por ai e ganham milhões por alguns anos e nem fizeram tanta coisa assim? Como pertencente a um família de atletas e ex-atletas posso dizer que também há um grande esforço mental em toda esta atividade (mas acho que não é esta a discussão) e não só isso há outros tipos de esforços que também devem ser levados em consideração. Talento físico deve ser levado em consideração (e acho que o tal mercado esportivo, assim como outros mercados, é muito injusto privilegiando o futebol). Portanto, não sei se levar em conta os talentos físicos dentro do esporte é uma inversão de valores. Na minha opinião inversão de valores é um mundo de gente correr para o telefone para votar em não sei quem porque tem um corpinho bonito para ganhar um milhão quando esse não sei quem sabe falar muito bem de si mesmo, por exemplo. Claro que não é justo que um sujeito que estudou e se quebrou dentro de um laboratório ou algo do gênero ganhe pouco, que o professor não ganhe o suficiente para continuar estudando e manter sua família. Acho que deveria haver mais justiça e mais orientação para jovens que, como Bruno, entram em um mundo repleto de facilidades não cometerem erros como o de Bruno.
Agora pensem: O que vemos na TV sempre: quem tem dinheiro tem poder e quem tem poder não sofre consequências sobre muitos de seus atos.
Pensem também: quantos ganham salários tão altos? Durante quanto tempo eles continuam a ganhar estes valores?
Este caso deve servir sim de exemplo para dizer para jovens que temos responsabilidade sobre tudo que fazemos na vida seja quem for nosso pai ou quanto dinheiro ele ganhe. Não acho que devemos parar de ‘idolatrar’ esportistas até porque, como bem disse o Fernando, o esporte, assim como as artes e a educação, tem um papel social gigante. Assim como acho que devemos dar mais valor aos que trabalham pela educação, informação e cultura do povo seja este alguém letrado ou não (como Cartola por exemplo).
Um forte abraço
julho 15th, 2010 at 11:00
Não posso discutir se Paulo Coelho é um fenômeno intelectual ou literário. Só usei o nome dele por ter sido uma das primeiras pessoas famosas, que ganha dinheiro com os livros que escreve, que eu me lembrei na hora. Poderia ter sido outro nome, meu raciocínio é o mesmo, assim como poderia ter dito outros nomes além de Dagoberto e Léo Moura (alguns amigos me xingaram por ter falado deles como bons jogadores).
julho 15th, 2010 at 12:51
Eu só sei que, na maioria dos casos, se o cara ganha bem é porque vale a pena pagar ele bem. No caso do futebol, é o que o povo gosta e dá retorno para quem paga o jogador. Se não pagar bem o jogador, outro time que tem dinheiro vai pagar, alegrará a torcida, que gastará com o clube, que terá o retorno investido no jogador e com isso se cria um mercado de grandes cifras.
Um negócio que envolve paixão, fidelidade e doação só poderia girar muito dinheiro.
Se as profissões, digamos, intelectuais fossem de interesse geral da população, aposto que renderia muito mais para muito mais pessoas dessa área.
Tudo é uma questão de grau de interesse. Oferta e procura.
julho 16th, 2010 at 14:46
Parabéns, vc realmente pensa em tudo.