Pra não dizer que não falei do Bruno
crítica, desabafo, filhos, morte, respeito, vergonha julho 14th, 2010
- Filha, vem cá. Tais vendo esse caso do goleiro?
- Tô.
- E o que estais entendendo disso?
- Que a moça teve um filho com ele pra ficar ganhando a pensão e ele não quis pagar e matou a moça.
- É isso mesmo. Mas o que a mamãe quer que tu entendas, é que o mais importante dessa história é que o fato dele ser famoso, de ser um ídolo do futebol, não faz dele uma boa pessoa. A moça o escolheu para ser pai do filho dela pelos motivos errados. E pagou muito caro por isso. As vezes uma pessoa sabe chutar, ou agarrar uma bola, sabe cantar, interpretar um texto, e por isso se torna alguém admirado por todos, sem que sequer se avalie o seu caráter. O que a mamãe quer te ensinar é que a fama de uma pessoa não corresponde ao seu valor real e uma pessoa deve ser admirada por ser boa, não apenas por estar numa posição de destaque.
Não vou escrever aqui que o tal do Bruno é um bandido (coisa que eu acho), porque ele ainda não vou julgado e condenado, por isso ainda é apenas um suspeito.
Também não vem ao caso ressaltar os requintes de crueldade do caso, nem o número de envolvidos. Não vou comentar nem sobre a relação homossexual (pois homem que tatua declaração de amor ao amigo nas costas é o que?). E nem vou me deter aos detalhes promíscuos da vida da vítima.
Pra mim, o que realmente importa neste caso é que simplesmente por agarrar bolas um sujeito sem escrúpulos foi alçado à posição de ídolo, atraindo a atenção de jovens, oportunistas ou não.
O que pode parecer natural, pois estamos no país do futebol.
Isso não é natural. Eu não acho. Natural seria admirar o sujeito que leva uma vida correta, se dedica aos estudos e ganha prêmios por um trabalho relevante.
É esse mundo que eu quero pra minha filha.
Tentei ler “Veronika decide morrer” há alguns anos.

Poucos livros me emocionaram mais que “A casa dos espíritos”, de Isabel Allende.
“O caçador de pipas”, talvez.
Além deste, comprei um único outro livro da autora chilena, do qual não me recordo o nome por se tratar de um amontoado de receitas misturadas a alguma poesia e uma farta dose de sensibilidade.
“Afrodite”, eu acho, mas não tenho certeza.
De qualquer forma, é uma destas obras que valem a pena possuir para enfeitar a mesinha de centro da sala. Livro grande, capa dura, belas ilustrações e um assunto interessante para iniciar uma conversa.
Frequentemente, no entanto, tenho me deparado com “Paula” nas diversas visitas que faço à livraria do Shopping (toda semana) e, apesar de Isabel exercer seu poder de sedução sobre mim desde os tempos em que me apresentou a Esteban, Clara e toda a magia que cercou suas vidas, venho desviando meu olhar de “Paula” há algum tempo.
Talvez por não achar um nome tão interessante, talvez por recordar de uma entrevista da autora que li (provavelmente) nas páginas da revista Cláudia quando ainda era uma criança capaz de registrar eternamente na alma a explicação de uma mãe sobre seu drama perante a dor de uma filha, mas incapaz de interpretar a força brutalmente destrutiva que se revela em experiências como esta, eu julgava que já sabia o suficiente sobre o livro e, portanto, não me interessava.
Minha mãe, num ataque compulsivo, trouxe para casa ontem “Paula”, sufocada sob outros volumes, na sua maioria relatos de mulheres que sofrem com a cultura do Oriente Médio, seu tema de leitura predileto.
Passei o dia lendo-o.
Já estou na página 226 e, fora os parentes interessantíssimos e as situações a que estes submetem Isabel, a narrativa encantada da chilena, recheada por figuras de linguagem que envolvem o leitor até o limite da pieguice (sem nunca ultrapassá-lo) é o fator que faz com que eu continue lendo as mais de 200 páginas que ainda restam sobre uma jovem que, inerte em seu leito, serve de plano de fundo para que sua mãe relate todas suas sensações (que muitas vezes se repetem) diante de tão aterrorizante situação.
Além disso, mesmo me sentindo abafada por tamanha angústia, eu sou mãe e, como tal sempre hei de me compadecer quando apresentada por uma semelhante à dor de um filho.
Contudo, a não ser que o final do livro se desenrole de forma surpreendente, acho que tive razão em todas as vezes que sai da livraria sem trazer “Paula” comigo.
A menina que roubava livros
2ª Guerra Mundial, livros, morte fevereiro 3rd, 2009
Capítulo II – O menino do pijama listrado
2ª Guerra Mundial, livros, morte janeiro 10th, 2009
Essa história é relativamente nova, então, se eu pretendesse seguir alguma ordem cronológica, ela deveria aparecer lá no final, mas como escrevo aquilo que tenho vontade, vai essa mesmo.
Antes de contar a história preciso explicar uma característica minha.
Fora a alimentação, me recuso a absorver qualquer coisa que me cause dano.
Em outras palavras: eu como muita porcaria, mas não vejo, por exemplo, filme de terror, porque me tira o sono. É poluição mental, como eu costumo chamar.
Há alguns anos descobri que todos os fatos relacionados à 2ª Guerra Mundial me fazem muito mal.
Depois de assistir a vários filmes sobre o famigerado evento, de sofrer com as atrocidades provenientes do mesmo e me contorcer com a dor dos judeus, resolvi que não me submeteria mais a esta angústia.
A guerra já acabou. As pessoas já morreram. e o que eu tinha para aprender sobre a história toda, pelo menos para sustentar uma conversa de buteco sobre o assunto, eu já sei.
Então… chega de 2ª Guerra Mundial.
Agora que vai começar a minha história.
Alguns dias depois do meu aniversário, em 2008, fomos comer uma pizza com um casal de amigos muito queridos. Resultado: um presente.
- Um livro! Que ótimo! Eu adoro livros (é verdade)! Não precisava se preocupar (que coisa mais besta de se dizer)!
Olhei aquele livro com um título bem bonitinho. Tentei dar uma lida rápida nas orelhas, enquanto todos me olhavam, mas não consegui pescar o assunto. Não importa. Livro sempre é bom!
Terminamos a pizza, jogamos mais um monte de conversa fora (sobre os índios também) e nos despedimos.
Enquanto eu e o meu coadjuvante (nem por isso menos importante) voltávamos para casa, fomos conversando sobre o livro.
- Que legal né. Como eles são atenciosos. E eu adoro livros. Só espero que não seja nada so a 2ª Guerra! Seria muito azar!
- Ai amor, não quero dizer nada, mas pijama listrado tá me lembrando 2ª Guerra.
- Não, não. Era só o que me faltava, porque vou ser obrigada a ler o livro porque ganhei de presente. Da próxima vez que nos encontrarmos terei que comentar sobre o livro, senão fica indelicado. Não é não. Aposto que é sobre outra coisa.
Chegamos em casa.
Meu companheiro de berço foi até o banheiro (o que quer dizer que foi ler uma revista inteira enquanto eu espero no quarto) e aproveitei para começar a ler o livro enquanto isso.
É uma história narrada por um menino de 10 anos (acho que é isso). Ele começa contando sobre um jantar importante na casa dele, com convidados especiais.
Fala também sobre o “fúria”.
E eu achando que o “fúria” era um cachorro. Sei lá. O que mais poderia ser?
Continuei lendo.
Silêncio total!
O “fúria” não era um cachorro. Simplesmente o menina não sabia falar Führer!
Isso mesmo. O próprio. A encarnação do mal. O diabo do Hittler.
Dei um pulo quando me conta disso. Fechei o livro correndo e larguei na cama como se estivesse repleto de aranhas. Senti vontade de chorar.
Que merda!
O livro era sobre o único assunto que eu detestava, que me fazia tanto mal que eu havia jurado nunca mais me interessar por nada que fosse relativo a ele.
Mas era um presente.
Os amigos eram (e são) tão queridos que eu jamais poderia deixar de lê-lo.
Merda²!
Dormi.
Uma semana depois precisei encarar o problema de frente.
Sentei na poltrona da sala e comecei a ler o livro.
Algumas horas depois fui obrigada interromper a leitura. Afazeres domésticos.
No dia seguinte me grudei naquelas páginas novamente e só larguei quando ele não tinha mais nada a me oferecer.
Êta livrinho bom.
Lá pelo final, acho que umas 10 páginas antes de acabar, dá um frio na barriga quando a gente percebe o que vai acontecer.
Quase morri de chorar. Soluçava.
Mas valeu a pena.
Apesar do assunto, AMEI o livro.
É que o menino consegue narrar fatos da guerra sem sequer tocar nos nomes que nos trazem tanta informação ruim.
Tô esperando a Ana crescer um pouco para oferecer o livro a ela.
Acho que é uma boa contribuição.
Somos bichos
morte, vergonha janeiro 4th, 2009
Se você está lendo este post, muito provavelmente pertence à mesma espécie que eu.
A espécie dos que tem acesso à internet, dos que sabem ler e escrever, dos que se preocupam em adquirir informação porque possuem a noção do quão importante ela pode ser, dos que dispõem de tempo para usufruir das novas tecnologias, daqueles que pensam, no sentido de que isso corresponde a avaliar riscos e fazer escolhas.
Parabéns!
Por um determinado motivo que eu ignoro, mas pode ser geográfico, financeiro, político ou social – ou todos eles juntos – você não faz parte da espécie de homens (e mulheres… e crianças… e idosos) que nasceram em meio ao caos e foram usurpados de qualquer chance de viver de forma digna, saudável, ao menos razoavelmente condizente com a satisfação das necessidades básicas de qualquer ser humano.
À eles (os da outra espécie) tudo foi negado, desde o princípio.
Atividades que consideramos banais lhes foram reprimidas.
Enquanto escolhemos o melhor restaurante de acordo com a nossa vontade do dia, eles não comem.
Fazem isso não para ficar em forma, mas porque lhes falta comida.
Enquanto deitamos em camas macias, aconchegantes, eles nem dormem.
Não por distração, mas por que existe uma ameaça de que suas casas (talvez prefiramos chamar de tocas) sejam explodidas no vazio da noite.
Eles não assistem televisão nem vão à escola.
Seus meninos não jogam futebol nos terrenos baldios, mas empunham metralhadoras que matam de verdade.
Eles não vão ao cinema. Vão à guerra.
Suas mulheres não fazem compras ou vão à academia, nem trabalham fora de casa ou se dedicam à cursos de artesanato para preencher o tempo enquanto os maridos não voltam do trabalho.
Suas mulheres simplesmente choram a angústia da dúvida de que os companheiros talvez nunca voltem. Depois elas secam as lágrimas e lutam pela sobrevivência dos filhos.
Por que mãe é mãe em todas as espécies.
Eles parecem bichos lá do outro lado do mundo, mas são feitos da mesma matéria que nós. Possuem características físicas iguais e, segundo especialistas, somos considerados da mesma espécie.
Eles são selvagens, e nós?
Somos apenas bichos de estimação.
Por favor, digam se estou louca.
A Educação Infantil é uma área que, assim como a medicina, muda constantemente.
Teorias aceitas incondicionalmente caem por terra num piscar de olhos.
Aquilo que em um momento se entende como certo, passa a ser questionado no momento seguinte.
Práticas que integram o dia-a-dia dos pais e educadores há muito tempo, de repente perdem o valor ou, o que é pior, se tornam condenáveis.
Acho isso saudável, apesar de que, confesso, me guio mais pelo bom censo do que por teorias.
Exatamente por isso estou preocupada.
Prega o meu bom censo (pelo menos aquele que eu acredito que tenho) que crianças devem ir para escola para aprender coisas saudáveis. Coisas que venham a acrescentar em seu crescimento individual e social.
Devem ser estimuladas a desenvolver características positivas.
Aí que mora a minha dúvida!
Tem sido prática recorrente aqui na minha cidade, especialmente em um bairro, as crianças em idade escolar (principalmente na 4ª série, o que corresponde a, mais ou menos, 11 anos) serem levadas pelas professoras, com o auxílio da Polícia Militar, até uma rodovia movimentada que nos liga ao município vizinho para parar os carros que passam e pedir alguma contribuição, a fim de auxiliar na festa de formatura das mesmas.
Os carros passam devagar, param, as pessoas abrem os vidros sorridentes diante dos pequeninos e, geralmente, sacam alguma moedinha.
As crianças agradecem satisfeitas sob o olhar orgulhoso das educadoras.
Cristo!!!
Me desculpem por despir tal situação de qualquer graciosidade.
Mas a verdade é que nossas crianças estão aprendendo a pedir esmolas.
Eu não aceito.
E você?


